1. Oferta e Consumo de Alimentos

Nessa última década, a oferta e consumo de produtos agrícolas no país está caracterizada por uma encruzilhada: crescimento do mercado externo de commodities e o atendimento crescente à demanda interna por alimentos em quantidade, qualidade e preço (o aumento da renda pressiona a demanda por aliment[1]). Isto se resume em tensão entre consumo mundial de commodities versus soberania alimentar.

No período houve um impulso na produção por commodities, ocasionado pelo ajuste externo da economia brasileira com a retomada do eixo primário exportador; pelo aumento dos preços dos produtos agrícolas; por reduções na produtividade global de grãos e oleaginosas; pelo crescimento da demanda mundial por alimentos, com o aumento da importação por parte de grandes mercados como China e EUA.

A produção brasileira de grãos entre as safras 2005/2006 e 2010/2011, aumentou 33% a produção, saindo de 122,5 milhões de toneladas para 163 milhões de toneladas. Nesse período, a área plantada cresceu 4,3%, enquanto a produtividade média aumentou de 2,6 toneladas por hectare para 3,3 toneladas (+27,5%).

As exportações brasileiras do agronegócio atingiram o montante de US$ 95,81 bilhões, em 2012, tendo uma expansão de 0,9% (+ US$ 846 milhões) em relação a 2011, quando as exportações foram de US$ 94,97 bilhões. As importações, por sua vez, atingiram US$ 16,41 bilhões, 6,2% inferior a 2011, portanto, o saldo da balança comercial do agronegócio foi de US$ 79,41 bilhões (Tabela 1).

A participação do agronegócio sobre o total exportado no período foi em média 38,87%. Na importação a presença do agronegócio é menor, em média 8,55%. O saldo do agronegócio (diferença entre exportação e importação) cresceu 317% (passando de US$ 19 para 79 bilhões) acompanhando a tendência do saldo total, que foi de 624% (passando de US$ 2 para 20 bilhões).

                    Tabela 1 - Exportação e Importação de 2009 a 2012 (bilhões)

Ano

Exportação

Importação

 

Brasil

Agron.

%

Brasil

Agron.

%

2012

242,6

95,8

39,5

223,1

16

7,4

2011

256

94,9

37,1

226,2

17,5

7,7

2010

201,9

74,5

36,9

181,6

13.0

7,2

2009

153

63,1

41,2

127,6

9,6

7,6

                         Fonte: CONAB, 2013.

O gráfico abaixo mostra a evolução da participação do agronegócio na balança comercial brasileira, na ultima década. O agronegócio acompanha o virtuoso de crescimento da exportação brasileira de tal modo que o valor total exportado do cresce 918% (passando de US$ 58 bilhões para US$ 243) e do agronegócio cresce 301% (passando de US$ 24 bilhões para US$ 96).

 

                       Fonte: CGOE / DPI / SRI / MAPA (Ministério da Agropecuária e Abastecimento)

 

O Brasil ocupa importantes posições no mercado mundial de produtos agrícolas. Desde o final dos anos 1990, poucos países cresceram tanto no comércio internacional do agronegócio quanto o Brasil. O País é um dos líderes mundiais na produção e exportação de vários produtos agropecuários. É o primeiro produtor e exportador de café, açúcar, etanol e suco de laranja. Além disso, lidera o ranking das vendas externas do complexo de soja (grão, farelo e óleo), que  é o principal gerador de divisas cambiais[2].

A tabela 2, além de mostrar quais são os produtos que destacam o país no cenário global, aponta o porcentual da produção exportada e, consequentemente, pode-se intuir o que é absorvido pelo mercado interno do país.

                            Tabela 2 - Posição do Brasil no mercado mundial

Produtos

Produtor

Exportador

% Exportada

% Merc. Interno

Açúcar

67

33

Café

59

41

Suco de Laranja

84

16

Soja em grão

53

47

Milho

14

86

Carne Aves

32

68

Carne Bovina

19

81

Carne Suína

17

83

                            Fonte: Dados do MAPA/SRI (Ministério Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento)[3].

 

Esta tabela mostra que o Brasil se destaca como maior produtor de açúcar, café e suco de laranja, sendo deles também o principal exportador, bem como de soja em grãos. No caso do milho menos de 20% da produção é exportado, enquanto, quase a totalidade da produção de suco de laranja é exportada. Entretanto, o país absorve, em média, 45% do que produz.

A exportação de produtos de origem animal, as carnes de aves, bovinos e suínos também ocupam importantes posições no ranking mundial. O Brasil é dono do segundo maior rebanho efetivo do mundo, com cerca de 200 milhões de cabeças. Desde 2004, assumiu a liderança nas exportações, com cerca de um quinto da carne comercializada. A avicultura brasileira tem apresentado altos índices de crescimento, colocando o país como terceiro produtor mundial e líder em exportação, com somente 30% do suprimento nacional. A suinocultura ocupa no cenário internacional o quarto lugar no ranking de produção e exportação, dispondo de 17% da carne comercializada.

Percebe-se que apesar das posições que o país ocupa no mercado  agropecuário global é o mercado interno o seu principal lócus de comercialização, pois boa parte do suprimento do agronegócio tem sua comercialização realizada no mercado interno, entorno de 45% dos produtos agrícolas e 77% dos produtos de pecuária.

Outra questão a destacar é que o processo de exportação de grãos no país se restringe, praticamente, na soja e no milho que na safra 2011/2012 responderam por 83% da produção (45% e 38%, respectivamente). Mais ainda, são produtos exportados in natura – matéria prima de ração animal.

A tabela 3 mostra a expansão da área ocupada com essas duas lavouras (milho e soja) foram de 6 milhões de ha, entre as safras de 2003 a 2012, suplantando os demais, com taxa de crescimento de 2% para milho e de 29,7% para soja. Para as lavouras de feijão e arroz houve inflexão, as duas tiveram uma taxa de crescimento negativo (-11%). A lavoura de cana de açúcar ampliou sua área em 30%, ocupando 9,6 milhões ha no mesmo período, isto correspondeu a taxa de crescimento de 78,8 %, devido aos preços internacionais do açúcar e da perspectiva do álcool (agro combustível)  no mercado interno e externo. O fator limitante para expansão da laranja deve-se aos estoques abarrotados que não conseguem absorver a oferta.  Há laranja no pé sem comprador, horizonte para a produção de laranja. O café tem a produção crescente sem expansão de área, decorrente de novas técnicas e tecnologias que impulsionam a produtividade.

Nesta tabela ainda se nota também os movimentos de alta de preço,  pois para todos os produtos houve crescimento no valor de produção, menos para o arroz. O crescimento do valor de produção foi mais intenso nos produtos voltados para exportação, ressaltando a intensidade de alta que ocorreu com a cana e o café. Houve também reflexos de alta nos produtos agrícolas voltados para mercado interno. Porém, foi menor no caso do feijão e negativa para o arroz.  No caso do comportamento do preço do milho deve-se a demanda externa (aumento na exportação) nos últimos anos, e no da mandioca deve-se a queda da oferta com as recentes secas no Nordeste. Entre os produtos do mercado externo, os que apresentaram menor taxa de crescimento do valor da produção, a laranja devido a indústria não absorve a oferta. E a soja teve um comportamento de preços oscilante, com períodos com tendência de queda (2003/06) e outros de alta (2007 a 2012)

Em termos de rendimento físico (quantidade/ha) houve crescimento generalizado dos produtos, e esse aumento contribuiu com a expansão da produção e expansão da área, até mesmo negativamente.

Ao contemplar os dados desta tabela, se observa que o Brasil vem produzindo matéria prima para ração (soja) e por outro lado, açúcar e álcool em detrimento da produção de alimento.

                                      Tabela 3 - Taxa de crescimento

Lavoura[4]

Área

Produção

Rendimento

Valor da Produção

 

Arroz

-10,6

30,4

45,9

-0,1

Mercado

Milho[5]

2

15,2

13

64,4

Interno

Mandioca

6,6

15,4

8,3

63,1

 

Feijão

-10,7

4

16,6

28,4

 

Café

-11

36

52

264

Mercado

Laranja

-2,2

17,1

19,7

55,7

Externo

Cana

78,8

85,3

3,6

219,2

 

Soja

29,7

44,1

11,1

76,2

                                  Fonte: Pesquisa Agrícola Municipal. PAM/SIDRA/IBGE: Disponível em www.ibge.gov.br.

 

 Nas próximas tabelas pontua-se a demanda e da oferta de alimento pelo viés do mercado interno, via a análise do o comportamento de três produtos: arroz, feijão e milho. O arroz e o feijão estão presentes na dieta do brasileiro, sendo que tem o maior consumo entre os pobres[6]. Já o milho, é utilizado basicamente para a alimentação animal (mercado interno e externo). Tal exercício permite verificar a tendência do mercado interno em temos de suprimento de produtos agrícolas de alimentos e as influencias dadas pela conjuntura externa(importação e exportação).

Tabela 4 - Oferta e Demanda de Produtos Agrícolas – Arroz,  ton. (1000 mil)

Safra

Oferta

Demanda

Est. In.

Produção

Importação

Suprimento

Consumo

Exportação

Est. Fin.

07/08

2014,4

12074

589,9

14691,3

11866,7

789,9

2033,7

08/09

2033,7

12602,5

908

15544,2

12118,3

894,4

2531,5

09/10

2531,5

11660,1

1044,8

15237,2

12152,5

627,4

2457,3

10/11

2457,3

13613,1

825,4

16895

12236,7

2089,6

2569,5

11/12

2569,5

11599,5

900

15069

12100

1300

1669

12/13

1669

12062

900

14641

12100

1100

1431

      Fonte: CONAB, 2013

O arroz nacional no consumo mostra uma leve tendência de crescimento no período compreendido, entretanto, esse comportamento se observa as safras de 2007/08 a 2010/11 (de 2,5%), pois nas duas seguintes ocorre inversão em -0,8%. A produção aponta um crescimento com pequenas oscilações, permanecendo praticamente estável no período. Esse comportamento oscilante reflete no do Suprimento nacional do produto.

As importações em relação ao Consumo ficam na faixa de 7%, um resultado nada desprezível. Cabendo ainda ressaltar que para o mesmo período ocorre grande queda dos estoques (-17%) e crescimento nas importações (53%). Este nível de importações (com tendência de crescimento) aponta que o suprimento do produto será composto pela combinação produção e importação e não por uma autossuficiência produtiva.  A respeito disso, é importante ressaltar que a receita orizícola tem importância econômica para o Brasil, no ano de 2011 representou 3,8% do valor bruto da produção agrícola nacional (R$ 156,0 bilhões)[7].

Essa produção é oriunda de dois sistemas de cultivo: irrigado e de sequeiro. A rizicultura irrigada é responsável por 60% da produção nacional, porém, com baixa rentabilidade, devido ao alto custo de produção e distorções de mercado. O custo de produção do arroz nacional que é muito alto e não tem competitividade quando comparado ao do  MERCOSUL. As importações advêm do MERCOSUL e em determinadas épocas do ano tem origem asiática. A indústria recorre ao mercado externo por produto com preço menor. Nesse contexto, os produtores reivindicam do governo o ordenamento da importação, e assim, evitar-se-ia a importação, por parte da indústria, em época da safra brasileira. Portanto, segundo as reivindicações dos produtores, nos próximos anos se espera que o suprimento desse produto seja compartilhado com os de fora, sem prejudicar a produção interna. A agricultura familiar responde por 34% da produção de arroz[8].

A produção nacional de arroz evoluiu de 7,4 milhões de toneladas, em 1990, para 12,7 milhões de toneladas, em 2009, devido, sobretudo à região Sul (responsável por 2/3 da produção nacional), onde além da tradição regional no cultivo da lavoura, houve melhorias de caráter tecnológico na produção e ainda ao avanço da área plantada. A melhoria no manejo da cultura e a adoção de variedades com rendimento superior, aliada à expansão da área plantada (58,4%) elevou a produção no Rio Grande do Sul de 3,2 milhões de toneladas em 1990 para 8,0 milhões de toneladas, em 2009. Em Santa Catarina, evoluiu de 567,7 mil toneladas em 1990 para 1,0 milhões de toneladas, em 2009. No entanto, no Paraná, apresentou significativo declínio da produção que passou de 253,5 mil toneladas em 1990 para 167,4 mil toneladas em 2009, sobretudo em decorrência da redução da área plantada de -71,3% (IBGE, disponível em www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticia).

A estimativa do IBGE[9] (de janeiro) para a safra nacional 2013 é uma área plantada de 2.401.538 ha, permanecendo praticamente inalterada, pois cresce somente 0,1% à plantada na safra anterior.

A produção esperada permanece no patamar de 12 milhões de toneladas, maior em 5,3% quando comparada a safra anterior. A recuperação dos preços do produto com relação a safra anterior e o prognóstico de tempo seco em janeiro e fevereiro, favorecendo o desenvolvimento  da cultura, foram responsáveis pelo atual quadro. Cabe ressaltar que o rendimento esperado para a atual safra de 7.529 kg/ha é o segundo maior da história, apenas atrás do obtido na safra 2010 de 7.648 kg/ha. 

                  Tabela 4b - Oferta e Demanda de Produtos Agrícolas – Feijão, ton. (1000 mil)

Safra

Oferta

Demanda

Est. In.

Produção

Importação

Suprimento

Consumo

Exportação

Est. Fin.

07/08

81,4

3520,9

209,7

3812

3550

2

230

08/09

230

3502,7

110

3842,7

3500

2,5

317,7

09/10

317,7

2322,5

181,2

3821,4

3450

4,5

366,6

10/11

366,6

3732,8

207,1

4300,8

3600

20,5

689,3

11/12

686,3

2918,4

220

3824,7

3500

45,5

279.7

12/13

279,7

3222,1

220

3821,8

3500

60

261,8

        Fonte: CONAB, 2013

 

A lavoura de feijão apresenta um comportamento no consumo praticamente estável, com pequenas oscilações. Enquanto a produção o comportamento é o inverso com alterações e tendência de queda da produção, apesar do pico da safra de 2010/11.

A participação porcentual das importações em relação ao Consumo fica na faixa de 5%, um resultado nada desprezível. Essas importações apontam até o momento para uma finalidade complementar, pois a importação cresceu  5% e o estoque inicial  244%, no período.

O feijão é cultivado todo o território nacional, porém grande parte da produção está concentrada em apenas 10 estados, PR, MG, BA, SP, GO, SC, RS, CE, PE e PA, responsáveis por praticamente 85% da produção nacional, atingindo anualmente cerca de 3,8 milhões de toneladas, distribuídas em três safras distintas, águas, seca e inverno. em razão de ganhos de produtividade da cultura, já que houve expressiva contração da área plantada.

Na região Sul, a produção de feijão teve uma expansão de 55,8% graças, sobretudo, aos ganhos de produtividade e à estabilidade da área plantada da cultura no estado do Paraná, cuja produção evoluiu de 279,0 mil toneladas em 1990 para 787,2 mil toneladas em 2009. Já a produção de feijão na região Sudeste sofreu redução da sua área plantada, a maior dentre as regiões produtoras (-40,4%), no entanto, os incrementos da produção, muito expressivos em Minas Gerais, resultaram numa expansão regional da ordem de 41,9%. A produção mineira mais que dobrou no período, passando de 293,5 mil toneladas para 602,3 mil toneladas. No Nordeste, onde o cultivo do feijão constitui uma das práticas agrícolas mais arraigadas, sua importância pode ser avaliada quer pelo tamanho da área plantada, a maior dentre todas as regiões, que, aliás, apresentou uma pequena retração (-6,2%) no período, quer pela evolução da produção que passou de 580,0 mil toneladas em 1990, para 844,5 mil toneladas em 2009. O maior produtor nordestino de feijão continua sendo a Bahia, contribuindo, em média, com 40% da produção regional (IBGE, disponível em www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticia).

Grande parte da atividade esteja nas mãos dos pequenos produtores, pouco tecnificados, principalmente na região nordeste, responsável por 70% da produção nacional[10].

Em 2013 o IBGE aguarda para o feijão total uma produção de cerca de 3,7 milhões de toneladas, maior 30,6% que a produção obtida em 2012. Registra-se uma área plantada de 3,5 milhões de hectares, maior 10,1% que a de 2012.

     Tabela 4c - Oferta e Demanda de Produtos Agrícolas – Milho, ton. (1000 mil)

Safra

Oferta

Demanda

Est. In.

Produção

Importação

Suprimento

Consumo

Exportação

Est. Fin.

07/08

1824,2

58652,3

652

61128,5

38180

7368,9

7675,5

08/09

7675,5

51003,8

1181,6

59860,1

46084,1

7333,9

7112,9

09/10

7112,9

56018,1

391,1

63522,9

46967,6

10966,1

5589,2

10/11

5589,2

57406,9

764,4

63760,5

48488,5

9311,9

5963,1

11/12

5963,1

72979,5

500

79442,6

51209,6

21500

6733

12/13

6733

72192,5

400

79325,6

51641

15000

12684

           Fonte: CONAB, 2013

 

Verifica-se nos dados da CONAB para a lavoura de milho uma tendência de crescimento, tanto de consumo (11,93%) como de produção (23,21%). A importação apresenta oscilações, mas não são expressivas, portanto, são de caráter complementar. Em contrapartida as exportações tiveram um aumento significativo no período (102,70%), tendo picos nas safras de 2009/10 e na de 2011/12.

Essa tendência positiva de crescimento observada na demanda (consumo e exportação) influenciou o crescimento da oferta pelo aumento da produção. O destino principal desse produto no mercado interno são as indústrias de: rações para animais, óleo, farinhas, amido, margarinas, xarope de glicose e flocos de cereais. A perspectiva externa, a conjuntura de alta dos preços está impulsionando a produção atual de milho.

A produção nacional de milho evoluiu 137,7%, passando de 21,4 milhões de toneladas, em 1990, para 50,8 milhões de toneladas, em 2009, em razão de ganhos de produtividade da cultura do que propriamente a acréscimos da área plantada. No Centro-Oeste, o crescimento foi de 402,7%, em razão da disponibilidade de terra, e da utilização de insumos modernos conjugados à mecanização em todo o ciclo da lavoura, sobressaindo principalmente o estado de Goiás, que, no entanto, ao longo do período, viria a ceder a sua posição para o estado de Mato Grosso e ainda o de Mato Grosso do Sul (IBGE, disponível em www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticia).

De acordo com IBGE em 2013 é esperado uma produção recorde de 74,2 milhões de toneladas, sendo que 36,1 milhões de toneladas são de milho 1ª safra e 38,1 milhões de toneladas são de milho 2ª safra. A perspectiva para 2013 é que a 2ª safra de milho seja superior à 1ª com participação de 51,3% contra 48,7% da 1ª safra, seguindo o que foi levantado em 2012, primeiro ano da história que a 2ª safra superou a 1ª. A agricultura familiar responde por 46% da produção de milho[11].

Dados os atuais padrões de consumo, produção e as possibilidades de importações e exportação, as análises apresentadas não configuraram qualquer situação de estrangulamento para o abastecimento interno referente aos grãos considerados. Para o feijão a participação do comércio exterior não é significativa. Para o caso do milho, o crescimento das exportações é explicado pelas tendências de alta da produção, consumo e mercado externo. Finalmente, para o arroz, embora a análise indique a tendência para maior participação das importações, não se pode prever problema de desabastecimento, dadas as possibilidades do comércio exterior e provável realocação da produção na área do MERCOSUL.

O ambiente nacional de regulação sobre a expansão territorial da atividade agrícola primária no Brasil vem sendo deslocada do Estado para segmentos do capital internacional. Entre 2000 para 2011, as áreas plantadas com alimentos básicos, como o arroz, feijão, apresentaram uma tendência de queda respectivamente, 21,6%, 11,4%, enquanto, a da mandioca. As do agronegócio exportador como a cana e soja aumentaram 100% e 76,5%. Passamos a importar até feijão da China. No ano passado importamos US$ 334 milhões em arroz, o equivalente a 50% do valor aplicado no custeio da lavoura em nível nacional. A produção de mandioca de 2011 foi menor que a de 1990 (-10,5%).

A próxima tabela mostra informações necessárias à percepção da evolução da disponibilidade por habitante[12] de comida: arroz, feijão e carnes (aves, bovinos e suínos) e também o comportamento do disponível agregado (Índice de Laspeyres).

      Tabela 5 - Disponibilidade por habitante dia e disponibilidade agregada (Índice de Laspeyres),

Ano

Arroz 

Feijão 

Aves 

Bovinos 

Suínos

Índice 

 

 

%

%

%

%

%

Agregado I

Agregado II

2003

79

 

17,2

 

32,1

 

41,6

 

12,6

 

100

100

2004

75,5

-4

17,3

0

32,8

2

39

-6

11,7

-7

94

97

2005

67

-11

19,1

10

35,5

8

40,1

2

11,4

-3

98

98

2006

64,6

-4

18,2

-5

35,8

1

43,3

8

13

14

100

105

2007

64,5

0

20,3

11

37,4

4

41,7

-4

12,8

-1

98

104

2008

63,7

-1

19,4

-4

39

4

36,3

-13

13,1

2

90

97

2009

63,1

-1

18,3

-6

38,6

-1

35,2

-3

13,4

2

88

98

2010

64,7

2

20,5

12

43,1

13

36,9

5

13,9

4

92

101

2011

58,2

-10

16,3

-20

46

-5

35,9

-3

14,7

6

88

98

2012

60,5

4

18,3

12

43

-7

34,5

-4

11,7

-20

84

96

         Fonte: CONAB, 2013. Disponível em www.conab.gov.br/.

 

A disponibilidade habitante por produto mostraram taxas anuais negativas de crescimento. No período a disponibilidade-habitante de arroz, carne bovina e suína apresentaram taxas negativas de crescimento, sendo mais acentuadas para os dois primeiros. Enquanto, a disponibilidade dos outros dois aponta uma tendência de crescimento, com a carne de frango com maior intensidade. Ao comparar no período, a disponibilidade com o consumo médio por habitante[13] a disponibilidade do arroz, da carne bovina e suína esteve aquém, enquanto, a do feijão e a de aves esteve acima. No caso do agregado I (arroz, feijão) dá para observar um comportamento de oscilação com tendência a estagnação, entre 2003/06, e nos anos seguintes manteve-se o comportamento oscilante, mas num quadro de queda nas quantidades. No agregado II (arroz, feijão e carnes) nota-se o mesmo comportamento, certa estabilidade até 2006 e posterior queda nos anos seguintes.

Portanto, os dados acima são indicativos de problemas quanto a disponibilidades de alimentos por habitante dia, no caso do arroz, carne bovina e suína e dos outros dois não é possível estabelecer tendência para o feijão, enquanto a carne de frango apresenta uma linha firme de crescimento.

Como agravante, as políticas de estoques de alimentos intensificam a exposição da população brasileira a riscos de abastecimento e ao processo inflacionário. Os estoques reguladores, além de insuficientes, são formados em função das pressões de produtores com problemas conjunturais de renda. Não existe política pública de formação de estoques estratégicos de alimentos. As compras governamentais da agricultura familiar são importantes enquanto alternativa de mercado institucional para esse segmento, mas não têm expressão econômica, portanto, são insuficientes para a garantia da estabilidade do abastecimento alimentos.

Percebe-se nas informações acima tanto do lado da produção quanto do lado do consumo e da disponibilidade per capta que ocorre o estrangulamento da oferta a demanda. Ou seja, a permanência desta situação de emprego verificado nesta recente década, pode implicar em problemas para abastecimento alimentar. Mais ainda, sem resposta adequada por parte da oferta, a melhoria de emprego e renda pode ser frustrada com efeito dos aumentos dos preços dos alimentos.

A respeito desse aspecto, o valor bruto da produção entre 2005 a 2012 cresceu 56,3% passando de R$ 156,0 para 243,9 bilhões. O padrão de comportamento dos preços agrícolas durante a década recente é ascendente, segundo os índices de preço ao produtor da FGV (Tabela, 6).

 

                         Tabela 6 - Evolução dos preços agrícolas e gerais

Anos

IGP-DI

IPA-M

IPA-10

IPP

2003

291

318

324

357

2004

327

366

373

406

2005

331

363

372

410

2006

343

379

389

413

2007

370

413

423

432

2008

404

458

471

544

2009

398

438

450

514

2010

443

499

512

512

2011

465

521

537

401

2012

503

566

580

609

                    Fonte: FGV/IBRE

 

 Nota-se na tabela acima que mostra a evolução dos preços agrícolas e gerais, que os recebidos pelos produtores rurais, medido pelo IPA e IPP[14], seguem a mesma tendência ascendente que a inflação, medida pelo IGP-DI[15]. Percebe-se, ainda, que os preços recebidos pelos produtores tiveram taxas de crescimento maiores que as taxas da inflação; e esses preços reagiram de forma crescente pós a crise de 2007, e com aumento mais expressivo pós a crise de 2010.

Isto posto, a dinâmica dos preços não é somente uma questão de especulação, mas também alimentar.

A Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF 2008/09 (IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que a quantidade de alimentos consumidos era habitualmente ou eventualmente insuficiente para 35,5% dos entrevistados ou um terço dos brasileiros. No ambiente rural essa percepção sobe para 45,6%, e nas áreas urbanas esse porcentual registra 33,6%. A POF também apontou que cerca 81% das famílias brasileiras tiveram dificuldades para chegar ao final do mês com rendimento monetário. Nas áreas rurais este porcentual sobe para 83%, enquanto nas urbanas foi de 74%.

A estrutura atual das políticas públicas que ensejam a incorporação da população de baixa renda ao consumo, ainda que com elevadas inversões de recursos públicos, faz com que as pressões de preços dos alimentos, se a tendência se manifestar por prazo mais largo, exijam somas crescentes de gastos correntes (Gonçalves, 2012[16]).

Sem a certeza de que este ano as condições do caminho permitirão grandes avanços, os exportadores brasileiros começaram 2013 com a expectativa de um horizonte incerto. O principal risco internacional para 2013 pode advir da Europa e no alto nível de desemprego verificado nos países europeus. Um agravamento da crise na Europa, que responde por 37% do comércio mundial, poderia impactar o Brasil tanto direta quanto indiretamente. Por um lado, a concentração da pauta exportadora em commodities deixa o país refém do clima internacional, ainda indefinido, e de sua influência sobre os preços e a demanda agrícola.




[1]A renda domiciliar per capita dos brasileiros cresceu acima das expectativas de desenvolvimento econômico do país neste ano. O dado é do Comunicado 2012: Desenvolvimento Inclusivo Sustentável, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o estudo, a qualidade de vida cresceu mais no Brasil do que o Produto Interno Bruto - PIB. O instituto usou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), até 2011 e da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) até outubro deste ano. Segundo a média do PNAD, o crescimento da renda per capita brasileira ficou em 40,69% de 2003 a 2011. Pela mediana o crescimento foi de 65,88%. Já o PIB per capita aumentou 27,70% no período. Outro aspecto analisado pelo Ipea foi a desigualdade, pelo Índice de Gini,  que passou de 0,539 em 2009 para 0,527 0,522 em 2012. Disponível em http://www.ipea.gov.br.

[4] As lavouras de grãos escolhidas segundo a CONAB representam 87% da área plantada em 2012, e ainda, as do mercado externo o Brasil ocupa o primeiro lugar quanto exportador, e as outras do mercado interno são os principais alimentos na dieta do brasileiro

[5] Somente 20% da lavoura do milho é exportada, segundo o MAPA: MAPA: Comércio Exterior da Agropecuária, principais produtos e mercados,  edição 2012. Disponível em www.agricultura.gov.br.

[6] Entre os produtos e grupos selecionados, o arroz (27,640 kg) e o feijão (10,344 kg) foram os únicos que apresentaram médias maiores que a média do total Brasil (26,499 kge 9,121 kg, respectivamente) nas faixas de rendimentos totais mais baixas. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009, Aquisição alimentar domiciliar per capita Brasil e Grandes Regiões. Disponível em http://www.ibge.gov.br.

[7] Segundo informações do IBGE/PAM.

[8] Censo Agropecuário de 2006, IBGE. Disponível em http://www.ibge.gov.br.

[9] Indicadores IBGE. Estatística da Produção Agrícola Janeiro de 2013. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –  IBGE, 2013. Disponível em http://www.ibge.gov.br.

[10] Censo Agropecuário de 2006, IBGE. Disponível em http://www.ibge.gov.br.

[11] Censo Agropecuário de 2006, IBGE. Disponível em http://www.ibge.gov.br.

[12] A disponibilidade é definida como produção menos exportações e mais importações. Ver Homem de Melo,F. A agricultura e a política econômica em 1983. São Paulo: Boletim da ABRA, v13 e nº3, 1983.

[13] Segundo a EMBRAPA o consumo médio por brasileiro de Arroz é de Kg 70 e de Feijão de 16 Kg. Disponível em www.agencia.cnptia.embrapa.gov.br . Segundo o CEPEA/EPAGRI o consumo médio por brasileiro de carne de frango, bovina e suína é 39 K9g, 38 Kg e 13 Kg, respectivamente. Disponível em www.cepea.epagri.sc.gov.br.

[14] Índice de Preços ao Produtor Amplo registra variações de preços de produtos agropecuários e industriais nas transações interempresariais, isto é, nos estágios de comercialização anteriores ao consumo final. A pesquisa de preços em que se baseia o cálculo do IPA é realizada continuamente, sendo feitas apurações a cada decêndio. O IPA está disponível nas mesmas versões do IGP (IPA-10, IPA-M e IPA-DI), que têm em comum a amostra de produtos e o cálculo, diferindo apenas no período de coleta de preços. Índice de Preços Recebidos pelos Produtores Rurais (IPR) – formado com base em pesquisa mensal de preços praticados por agricultores na venda a granel de 38 produtos. Apresentado como média nacional, média por estado produtor, em séries de preços nominais (em R$) e agregados em grupos.

[15] O Índice Geral de Preços (IGP) foi concebido no final dos anos de 1940 para ser uma medida abrangente do movimento de preços

[16] Gonçalves, JS. FIM DO ALIMENTO BARATO: ressurreição do fantasma malthusiano ou manifestação do mito do desenvolvimento econômico. São Paulo: Informações Econômicas, SP, v. 42, n. 2, mar./abr. 2012.