5. Insumos Químicos (fertilizantes e agrotóxicos) e Máquinas

5.a - Fertilizantes

O modelo de desenvolvimento da agricultura brasileira, centrado em ganhos de produtividade, tem gerado aumento crescente do uso de fertilizantes e agrotóxicos. 

A tabela 11 mostra que a quantidade de fertilizantes comercializada por área plantada praticamente dobrou entre 1992 e 2004. Em relação ao período de 2003 a 2005, a queda pode ser explicada pela crise na agricultura, tendo como consequência a descapitalização do agricultor. Já o ano de 2007 registra a maior quantidade de fertilizantes comercializada por área desde 1992, tendo contribuído para isso: o setor canavieiro, com grande demanda; os produtores de grãos e algodão; a antecipação de compras pelos produtores; além da adoção de novas tecnologias. As lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar, café, algodão herbáceo e arroz foram as que mais consumiram esses insumos.

Tabela 11 - Quantidade comercializada de fertilizantes por área plantada (Kg/Ha)

Tipo de nutriente

 

Ano

1992

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

Total

69,4

122,6

109,8

128,8

134,7

143,6

163,1

152

132,2

141,4

167,9

143,7

138

N - nitrogênio

16,9

30,5

28,1

32,7

32,3

33,9

38,4

35,5

34,1

36,5

43,6

38,3

38,9

P2O5 - fósforo

26,2

44,7

39,7

45,9

48,9

52,4

59

54,7

44,9

50,0

58

48,9

51,1

K2O - potássio

26,7

47,4

42

50,3

53,5

57,1

65,8

61,8

53,1

54,9

66,2

56,5

48

  Fonte: SIDRA/IBGE

 

Do rol de fertilizantes, o potássio apresentou o maior crescimento relativo de 1992 a 2007, embora o consumo de todos os nutrientes tenha crescido em torno de duas vezes no período. O potássio e o fósforo apresentam consumo similar e mais alto que o nitrogênio. O menor consumo de nitrogênio está associado a fixação biológica deste nutriente no cultivo da soja. Em 2010, a quantidade comercializada de fertilizantes foi de 155 Kg/ha, das quais 43,7 kg/ ha de nitrogênio, 51,8 kg/ha de fósforo e 59,6kg/ha de potássio. O Sudeste apresentou a maior comercialização de fertilizantes por unidade de área (208,1kg/ha), acima da média brasileira. De acordo com os dados, a quantidade de fertilizante por área plantada passou de 69,4 kg por hectare em 1992 para mais de 155 kg/ha em 2010. Durante o período, o uso de fertilizantes consumidos no país chegou a atingir um pico de 167,9 kg/ha em 2007, segundo o IBGE, em consequência da grande demanda dos produtores de grãos e algodão, da antecipação de compras pelos produtores, e da adoção de novas tecnologias. O índice caiu em 2008 e 2009, como reflexo da crise econômica internacional e de uma queda na entrega de fertilizantes. Mas voltou a subir em 2010, ano marcado pela forte demanda do mercado internacional por commodities brasileiras, o que incentivou a produção e a compra de fertilizantes (Tabela 2).

A entrega de fertilizantes ao consumidor final no Brasil fechou 2012 com a comercialização de 29,5 milhões de toneladas, em torno de 4,2% acima da quantidade atingida em 2011, que foi de 28,3 milhões de toneladas (Tabela 12).

                       Tabela 12 – Produção, consumo e importação de Adubos(ton. - milh.), 2006/12

Item

Ano

taxa

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

cresc/o

Produção

8,8

9,8

8,8

8,4

9,3

9,9

9,7

10,2

Importação

12,1

17,5

15,4

11,0

15,3

19,8

19,5

61,2

Entregas consumidor

20,9

24,6

22,4

22,4

24,5

28,3

29,5

41,1

                Fonte: ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos). Disponível em http://www.anda.org.br.

 

Em termos de consumo a ANDA informou que o estado do Mato Grosso liderou o volume de entregas ao consumidor de adubos em 2012, atingindo um patamar de 4,9 milhões de toneladas, com crescimento de 13% 3m relação a 2011. Logo em seguida vem o estado de São Paulo com 3,8 milhões de toneladas e Rio Grande do Sul com 3,4.

O aumento do consumo de adubo observado na tabela 2 foi calçado pelas importações, cujo crescimento foi equivalente as entregas, enquanto a produção nacional apesar de apontar crescimento no período, foi em patamar menor, sendo que nos últimos anos praticamente permaneceu constante. O Brasil depende pesadamente das importações de fertilizantes, uma vez que produz menos que a metade da demanda crescente de suas necessidades.

A demanda por fertilizantes para a safra 2012/13 permanece aquecida, tendo em vista a alta nos preços das commodities agrícolas, especialmente de grãos e oleaginosas, em níveis remuneradores para os agricultores, em parte, pela seca que atingiu os Estados Unidos, amplamente divulgada nos noticiários. Estima-se aumento no consumo de fertilizantes para várias culturas especialmente para as culturas do milho, da soja e cana-de-açúcar. 

Os gastos com importações de fertilizantes até a quarta semana de março de 2013 aumentaram em 72,0% ante o mesmo período do ano passado (Valor econômico de 25/03/2013, disponível http://www.valor.com.br).

A respeito das relações de troca entre fertilizantes e os principais, segundo dados da ANDA, constatou-se que em 2012 somente a cultura da cana-de-açúcar apresentou relação de troca mais favorável, quando comparada com a de 2006, ou seja, mesmo com ganho do poder aquisitivo dos produtores com preços das commodities houve maior dispêndio em 2012 para compra de fertilizantes agrícolas.

Por fim, o relatório IDS/IBGE, 2012 apontou que o uso intensivo de nitratos pode a vir a contaminar o lençol freático, ameaçando a saúde da população e dos aquíferos subterrâneos. Além disso, os óxidos de nitrogênio que se originam de reações químicas dos fertilizantes no solo podem alcançar camadas mais altas da atmosfera, contribuindo para a destruição da camada de ozônio.

5.b - Agrotóxicos

Em 2008, o Brasil passou os Estados Unidos e assumiu o posto de maior mercado mundial de agrotóxicos. A posição alçada pelo Brasil de maior consumidor de agrotóxico (seguido pelo EUA) está inserida no contexto de ajuste produtivo do agronegócio, de exercer (no plano das expectativas) o papel de maior produtor de commodities para o mercado mundial.

Nos últimos dez anos, o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 93%, o mercado brasileiro cresceu 190%. Em 2010, o mercado nacional movimentou cerca de U$ 7,3 bilhões e representou 19% do mercado global de agrotóxicos. Já os Estados Unidos foram responsáveis por 17% do mercado mundial.

As maiores empresas que controlam o mercado nacional de agrotóxicos são multinacionais instaladas no Brasil (por exemplo, Basf, Bayer, Dupont, Monsanto, Syngenta, Dow). Cerca de 50% de todos os agrotóxicos registrados no Brasil não são colocados à disposição dos agricultores, é o que apontam os dados divulgados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), durante o “2º Seminário Mercado de Agrotóxicos e Regulação”, em Brasília/DF, abril de 2012 (disponível em http://portal.anvisa.gov.br).

Além disso, 24% das empresas de agrotóxicos instaladas no Brasil não produziram, nem comercializaram nenhum produto durante a última safra. Essa prática revela certa estratégia de reserva de mercado, além de representar uma perda para os agricultores, que são privados de ter acesso aos produtos registrados.  Outro ponto destacado pela ANVISA é que 53% das empresas de agrotóxicos instaladas no Brasil não possuem fábrica, são empresas que atuam como verdadeiros escritórios de registro, sem agregar nenhum benefício para a sociedade (o registro de um produto agrotóxico agrega valores intangíveis ao patrimônio dessas empresas).

De acordo com a pesquisa existe uma concentração do mercado de agrotóxicos em determinadas categorias de produtos, os mais intensamente aplicados no país são os herbicidas (mais de 50% do total), usados no controle de ervas daninhas. Seguidos pelos fungicidas (14%), inseticidas (12%) e os demais (29%). O amplo uso de herbicidas esta associado às praticas de cultivo mínimo e de plantio direto no Brasil, técnicas agrícolas que usam mais intensamente o controle químico de ervas daninhas.

As dez maiores empresas de agrotóxicos na safra de 2010/11 foram responsáveis por 75% do mercado de venda, contudo na produção essa proporção cai para 65%. Outra tendência apontada pela ANVISA é a de que o mercado brasileiro de agrotóxicos se estrutura de tal maneira que as dez maiores indústrias não competem entre si. As empresas focam a produção em agrotóxicos com ingredientes ativos que não são comercializados pelas demais empresas, permitindo monopólio sobre os produtos.

Nessa safra de 2010/2011, o mercado nacional de venda de agrotóxicos movimentou 936 mil toneladas de produtos, sendo que a produção gerou 833 mil toneladas de agrotóxicos, enquanto, a importação foi de  246  mil toneladas de produtos.

Os dados da ANVISA apontam, ainda, que 90% da produção nacional de agrotóxicos foram de produtos formulados, ou seja, agrotóxicos prontos para serem utilizados na agricultura. Os outros 10% corresponderam a produtos técnicos, que são os ingredientes utilizados na formulação dos agrotóxicos.

Entre os anos de 2000 a 2009 houve um aumento no consumo de agrotóxicos, passando de 3,0 kg/ha para 3,6 Kg/ha de ingrediente ativo (IDS/IBGE, 2012).

O consumo de agrotóxicos cresce de forma correspondente ao avanço do modelo do agronegócio, que utiliza grande quantidade de produtos químicos para garantir a produção em escala industrial. Essas fórmulas podem causar distúrbios neurológicos, respiratórios, cardíacos, pulmonares e no sistema endócrino, ou seja, na produção de hormônios. Com o uso intensivo de produtos químicos nas lavouras no país, os agrotóxicos estão deixando de ser um insumo relacionado especificamente à produção agrícola e se transformando em um problema de saúde pública (tanto dos trabalhadores rurais como dos consumidores de alimentos) e preservação da natureza (biodiversidade, solos e recursos hídricos).

Essa situação torna-se mais preocupante quando se analisa as condições do produtor e do modo de produção. De acordo com último o Censo Agropecuário dos responsáveis pelos estabelecimentos agropecuários 77,6% tinham apenas o ensino fundamental incompleto, o que revela um grau de escolaridade baixo daqueles que os utilizam os insumos químicos, e isto é um agravante, pois a maioria dos usuários apresentaram dificuldades em compreender as especificações de uso determinada para cada produto (analfabeto funcional). Outras situações sobre produção também se destacaram neste Censo, como o baixo percentual de adoção de praticas alternativas de controle de pragas e doenças (como por exemplo, rotação de culturas, controle biológico, etc.); o elevado número de estabelecimentos que não utilizaram nenhum equipamento de proteção individual durante a aplicação (21,3%) e o expressivo número de estabelecimentos (70,7%) que utilizaram o pulverizador costal, equipamento que apresenta o maior potencial de exposição aos agrotóxicos. Foi constatado ainda que, entre os estabelecimentos que utilizaram agrotóxicos é bastante limitado (21,1%) o numero dos que receberam, regularmente, orientação técnica e extensão rural.

5.c - Máquinas

O total de tratores existentes em 2066, 820,7 mil estava distribuído em 530,3 mil estabelecimentos agropecuários (que representava somente 9,2% do total). O número de tratores, segundo o Censo Agropecuário de 2006, no período de 1975 a 2006 registrou um crescimento, passando de 165,9 mil para 820,7 mil (395%). Sendo que, entre 1975 a 1985 cresceu 301%, período que as máquinas e os insumos químicos marcavam a modernização da agricultura brasileira.

Na análise dos dados do IBGE (www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias) do uso de força mecânica e tração animal nas lavouras, observou-se que a força mecânica é proporcionalmente mais usada em áreas de produção intensiva de lavouras comerciais no nordeste de São Paulo, no oeste do Paraná, noroeste do Rio Grande do Sul e na parte central do Estado de Mato Grosso e, de forma isolada, ela se apresenta no sul do Maranhão e do Piauí, e no oeste da Bahia. O uso combinado das duas técnicas se destaca em áreas periféricas, como a do vale do rio Jaguaribe, no Ceará; do vale do rio Apodi, no Rio Grande do Norte; e do Município de Irecê, na Bahia, entre outras, na Região Nordeste; além do norte de Minas Gerais e do vale do rio São Francisco. O uso de tratores se concentra principalmente no Sul e Sudeste, com tendência de expansão nas novas áreas de produção agropecuária, como o Centro-Oeste. O uso de calcário e/ou de outros corretivos do solo, bem como de adubos, tende a seguir um padrão espacial muito semelhante ao do uso de tratores, indicando associação entre os segmentos da modernização.

A tabela 13 mostra o aquecimento dos ganhos do setor de máquinas e implementos agrícolas na última década. O faturamento do setor entre 2007 e 2012 passou de R$ 5.844,3 para R$9.906,7 milhões. Permite conhecer o crescimento de 36,1% do número de pessoas empregadas no período compreendido. A balança comercial desse setor apesar de apresentar um saldo positivo, esse vem decrescendo com passar dos anos, o que permite intuir que o crescimento das demandas do setor advém do mercado interno.

Tabela 13 - Série histórica do setor de máquinas e implementos agrícolas 2007/12

Ano

Faturamento

(R$ milh)

Exportação

(US$ milh FOB)

Importação

(US$ milh FOB)

Número de

Empregados

2007

5844,3

685,9

193,2

38734

2008

8336,7

1001.6

343,1

43515

2009

5986,2

474,6

244,1

41813

2010

7478,7

823,1

397,0

45771

2011

9972,9

997,1

583,3

52719

2012

9906,7

727,1

597,4

56128

Fonte: DEEE/ABIMAQ-SINDIMAQ, apud BOLETIM MENSAL DA CÂMARA SETORIAL DE MÁQUINAS                                                                            E IMPLEMENTOS AGRÍCOLAS DA ABIMAQ | DEZEMBRO/2012 - Nº 41. Disponível em http://www.abimaq.org.br/download/DIA/SRRP/InformativoCSMIA_Ed41_WEB.pdf

Máquinas e insumos agrícolas marcaram a modernização da agricultura, mas na atual fase do processo destaca-se para parte do setor do agronegócio o consumo intensivo de capital intelectual (que congrega uma série de habilidades, competências, informações, conhecimentos, bancos de dados e técnicas).

Destacam-se, na área, por exemplo: uso de irrigação; municípios com 50% e mais da área colhida com uso de sementes certificada e transgênica; municípios com 50% e mais dos estabelecimentos agropecuários com acesso a assistência técnica; aplicação de plantio direto; produção de eucalipto (clonado); entre outros. Na pecuária bovina, destacam-se estabelecimentos com transferência de embriões; rastreamento; uso de rações indústrias; e confinamento e inseminação (www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias).

Observa-se, ainda, por exemplo, a introdução do plantio direto no sistema de preparo do solo e o uso de sementes certificadas e transgênicas na cultura de grãos no oeste da Bahia, no sul do Maranhão e no Piauí. Ao lado do padrão espacial pontual de áreas modernizadas, típico do Nordeste, é visível um padrão contínuo em áreas de alta intensidade de lavoura e pecuária para abastecimento de grandes centros urbanos do país e para exportação, que abrange os estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O uso de sementes certificadas e transgênicas se destaca em municípios das regiões Sul e Sudeste. A adoção de colheitadeira em grandes estabelecimentos (100 hectares e mais) permite observar uma seleção de áreas com contornos bem definidos nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso e Goiás. Já no caso da pecuária, o uso de tecnologias abrange especialmente Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais e Goiás, além de áreas pontuais no Acre, no Amazonas e no Pará.

A tecnologia da agricultura de precisão possibilita a organização e manutenção do banco de dados da variabilidade espacial e temporal do sistema de produção das culturas, o que é importante para o desenvolvimento de técnicas que procuram o uso racional de recursos naturais e insumos agrícolas.